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19 de fevereiro de 2009

MARICA - UM PAPEL AMOROSO


Durante a vida assumimos muitos papéis e personagens. Algumas horas somos pais, outras vezes, somos filhos. Somos profissionais, alunos, professores, patrões, empregados, atletas, bêbados, somos alegres, somos tristes.
A coisa de dois anos, você foi obrigada a desempenhar papéis que não desejava, nem nos seus piores pesadelos. Para esses papéis, deixo os estudos e conclusões para os médicos, os “doctors”.
Vou ficar ruminando com meus botões outros papéis que desempenhaste e que me trazem alento ao coração.
O papel de namorada do Chico, quando morava ainda na Tia Albertina, de namorada do Amadeu, já morando com a gente. Elegante e produzida toda vez que saia de nossa casa, mesmo que fosse só para dormir na casa da Alice Preta.
Suas idas aos forrós e sambas no “Vila União”, no “Dallas”, onde sua preferência era para “rapazes” abaixo de quarenta anos.
Nossas conversas na varanda da Felino Barroso. Eu, no papel de aprendiz da vida e você, professora.
Teu papel mais comentado: criadora de pratos inesquecíveis. Galinha guisada, "porquinho", empadão de carne moída, rosbife, bolo de macarrão, fritada de bacalhau, salada de feijão com sardinha, teu feijão com arroz e farofa. Tudo eu devorava com a boca e o coração.
Tanta coisa boa para lembrar...
Tu dizias que não gostava de cozinhar. Como explicar, então, esses presentes que nos dava diariamente e que só poderiam ser feitos com tanto amor?
Se não foi por amor à culinária, foi por amor a nós.
Este é teu legado. Teu melhor papel. De amor. À vida e aos teus.

3 de fevereiro de 2009

UMA ESTRELA SOLITÁRIA


Você, meu inesquecível amigo Bessa, que já esteve na estação dos que ficam, pensando nos amados que partem, deve entender, agora que é passageiro do trem de ida, como nos sentimos.

Para te ver, te ouvir, a partir de agora, só na imaginação. Imagino você, sentado numa arquibancada celestial, bermudinha creme, camisa pólo listrada, boné do Botafogo, radinho de pilha, ouvindo a resenha do Saldanha, falando da mulher amada com o Vinícius, na alegria de ver os dribles do Garrincha, a folha seca do Didi, os gols do Heleno, tendo ainda a teu lado alvinegros como Clara Nunes, Nara Leão, Zacarias (Trapalhão), Fernando Sabino, Clarice Lispector, Otto Lara Resende, Juscelino Kubitscheck, Pepê, Sargenteli, Oswaldo Cruz...

Este pensamento, até infantil, me alivia a desdita de acordar sem poder ligar para você. Resta, agora, a necessidade de voltar a ser feliz, mesmo ficando menos fácil sorrir. Reacendestes em todos nós, felizardos amigos teus de vida, a chama do medo que existe no nosso desentendimento da morte.

Quando nossos pequenos perguntam sobre os que embarcam, normalmente dizemos que viraram estrelas. No seu caso, meu amigo, que já trazia o Botafogo no coração tão bom e tão frágil, virar estrela foi mais fácil.